O início

Início de tanta coisa… Comecei hoje a escrever aqui, inspirei-me na Sara, realmente ela é fantástica a escrever. A Marisa está no Brasil. A minha irmã, em Telheiras (digo isto como se fosse normal estar numa clínica, como quem diz a tratar-se).

 Tratar-se? Do quê? Doença bipolar, é crónica. É controlável? É. Sempre? Não. Qual é a fase mais acentuada? No caso da minha irmã é a depressiva.

“Ah então têm muita sorte, a fase maníaca dá pra fazer coisas que não cabem na cabeça de ninguém”. Obviamente, o suicídio é incrivelmente natural e humano. Eu acredito que tudo isto pareça simples e que todos consigam aconselhar muito bem e dar o seu ombro amigo e dizer: vai passar, vai passar, ela vai ficar melhor, vais ver. E eu finjo acreditar e digo que sim, que espero que sim.

Mas não consigo, é isso, eu não consigo. Eu não consegui digerir a cena que vivi em Agosto de 2007. Estava eu de férias e vejo a minha irmã a tentar suicidar-se, a fugir de casa em direcção à linha do comboio e a voz (a voz de desespero e ao mesmo tempo tão profunda) da minha mãe, que gritava o nome

 Marisa, Marisa, onde é que tu foste filha?

E eu corria, corria sem saber pra onde ir, o meu coração com o receio de que tudo se realizasse, os medos, os temores que vivemos durante meses e meses. O queres correr e gritar por ela e não conseguir. E desesperar? Fazer o que?

Encontrá-la, agarrá-la, falar-lhe (sem ela ouvir)… Ver o olhar discriminante das pessoas que julgam, julgam sempre sem saber (erro humano e frequente). E sentarmo-nos no chão, chorar juntos, perguntar, perguntar…

Porquê Marisa? Porquê desistir? E nós?

E ela não respondia, ela queria sair dali, sozinha, queria consumar o seu desejo, queria enfim morrer. Como? Pensei eu, como é que ela quer morrer? A minha irmã, com quem eu passo metade do tempo a gritar e a dizer coisas que não devia, a minha irmã para quem eu nem sempre tenho paciência. E o desejo perto de se realizar e eu que não lhe disse o quanto gosto dela, o quanto ela é importante para mim e quão bom é o seu exemplo. E choro, choro sem conseguir parar…

A minha irmã, porquê? Eu não consegui digerir, foi isso. Eu não estou a conseguir ainda. Eu li a carta que ela me deixou. Eu li que ela queria que eu nunca deixasse de lutar.

Eu luto? Eu estou somente perdida. Com a vontade extasiante de arrancar de dentro de mim estes pensamentos e incertezas. Porque eu não sou como todos pensam, eu não sou forte, eu não sou de pedra, eu estou desesperada por dentro, grito na tentativa de que alguém me ouça, sorrio para que não me desmascarem. Todos dizem que sou uma ’esponja’, sim eu absorvo os problemas dos outros. E depois? quem cuida dos meus? Eu não sou capaz, não sou… Não vejo soluções e apetece-me chorar agora mais do que nunca.

Ver o carro chegar perto de nós, os gritos do meu pai. O que ele dizia, o desespero no seu coração de pai (forte) mas cansado… Queria bater-lhe, bateu-lhe. E daí? Ela queria, ela queria… Deitaram-na, não me queriam ali, não me queriam a ver aquilo. Eu subi, fui dar-lhe os comprimidos, ela não me olhou. Olhou a caixa ridícula com as letras dos dias da semana marcadas e as diversas tampinhas, aquele olhar, aquele olhar…

Profundo, vazio ou cheio de raiva. Não sei, nunca soube decifrá-lo. 

Hospital uma noite inteira, como tantas outras, fiquei em casa, liguei a quem não devia, chorei mais… Desesperei, deixei de pensar.

Lá acalmam-na e depois? Vem melhor? Não. Ela sabia que nessa noite não ia conseguir, que íamos atrás dela, ela sabia que não era assim que tinha planeado. Eram os comprimidos, os comprimidos, a cura que ia tornar-se veneno num dos dias em que se encontrasse em casa sozinha. E não tinha feito já por causa da minha mãe, porque a minha mãe é a única que a compreende. Eu não. Eu não faço parte do que a faz querer viver… Eu não o posso evitar, eu não posso fazer nada, sou inútil. Invisível.

E ela dizia que choravamos uma semana e depois passava…

Passaram-se meses, não aconteceu, e eu choro agora. Porque agora vi que não sou nada. Porque agora explodi. Porque, ao mesmo tempo, percebi que tenho de existir. Mas ainda continuo sem um motivo para tal. E choro.

 Foi isso que eu não ultrapassei, foi o pensar que não sou um motivo para que ela queira viver. Não sou nada. Que não importo, que não a compreendo, que não a ajudo. Sou daquelas pessoas que ficaria com um grande acumulado de sentimentos por mostrar, palavras por dizer

 E tenho tanto para revelar. Tanto que eu queria dizer. Mas ainda mais por perceber. Perceber a minha essência que não entendo de forma alguma. Eu queria tanto poder mudar aquele pormenor. Queria tanto ser um dos motivos pelos quais ela viveria… Mas não sou,

não sou nada…  

Deixar uma Resposta